Para Tiago Oliva Schietti, empresário do setor cemiterial e funerário, a arquitetura de um cemitério comunica muito antes de qualquer palavra ser dita. A forma como os espaços são organizados, a qualidade da luz natural, a escolha dos materiais e a relação entre construção e paisagem determinam, em grande medida, como as famílias vivenciam o luto nesses ambientes.
Ao longo deste conteúdo, você vai entender como a arquitetura cemiterial contemporânea se afastou do modelo tradicional e passou a incorporar princípios de bem-estar, memória e integração urbana que redefinem o que se espera de um espaço funerário de qualidade.
Do monumental ao acolhedor: uma virada de paradigma
Durante séculos, a arquitetura funerária foi dominada pelo monumentalismo. Mausoléus imponentes, esculturas grandiosas, portões ornamentados e capelas neogóticas compunham a linguagem visual dos grandes cemitérios ocidentais, refletindo tanto a hierarquia social quanto a necessidade de afirmar a permanência diante da morte. Conforme examina Tiago Oliva Schietti, esse paradigma começou a se deslocar ao longo do século XX, quando arquitetos e urbanistas passaram a questionar se a monumentalidade servia às famílias ou apenas às convenções estéticas herdadas.
A virada contemporânea na arquitetura cemiterial é marcada por projetos que priorizam o acolhimento sobre a grandiosidade. Espaços mais baixos, materiais naturais como madeira, pedra e concreto aparente, vegetação integrada às estruturas, iluminação cuidadosa e circulações que convidam à contemplação substituíram a lógica do monumento pela lógica do refúgio. O cemitério deixou de ser um lugar para impressionar e passou a ser um lugar para estar.
Referências internacionais que redesenharam o campo
Alguns projetos internacionais tornaram-se referências obrigatórias para quem estuda arquitetura cemiterial contemporânea. O Cemitério do Bosque, em Estocolmo, projetado por Gunnar Asplund e Sigurd Lewerentz e concluído em 1940, é considerado um dos marcos fundadores dessa linguagem. Inscrito na lista do Patrimônio Mundial da Unesco desde 1994, o projeto integra topografia, vegetação e edificações em uma composição que induz à meditação e ao silêncio sem recorrer ao peso visual do monumento tradicional.
Mais recentemente, o Cemitério de San Cataldo, em Módena, projetado por Aldo Rossi na década de 1970, e o Memorial da Itália, em Milão, ampliaram o debate sobre como a arquitetura pode mediar a relação entre os vivos e os mortos sem apelar ao kitsch sentimental. Na concepção de Tiago Oliva Schietti, essas referências internacionais ainda são pouco conhecidas no Brasil, o que representa tanto uma lacuna na formação dos profissionais do setor quanto uma oportunidade para empreendimentos que queiram se diferenciar pela qualidade projetual.
O que a arquitetura cemiterial brasileira tem a aprender?
O Brasil possui exemplares significativos de arquitetura funerária, especialmente em cemitérios históricos do século XIX e início do XX, onde a influência europeia produziu conjuntos escultóricos e capelas de grande valor patrimonial. No entanto, a produção arquitetônica cemiterial brasileira das últimas décadas é marcada pela padronização, com projetos que replicam fórmulas sem considerar o contexto climático, cultural e urbano de cada região.
Tiago Oliva Schietti aponta que a ausência de diálogo entre o setor funerário e as escolas de arquitetura é um dos fatores que perpetua essa estagnação. Cemitérios raramente aparecem como objeto de estudo em cursos de graduação, e poucos escritórios de arquitetura acumulam experiência específica nesse tipo de programa. Romper esse isolamento, por meio de concursos de projeto, parcerias com universidades e publicação de casos de referência, é um caminho para elevar o padrão arquitetônico dos empreendimentos funerários no país.

Capelas, crematórios e espaços de cerimônia
Entre os programas arquitetônicos mais sensíveis dentro de um empreendimento funerário estão as capelas e os espaços destinados às cerimônias de despedida. São ambientes que precisam acomodar grupos de diferentes tamanhos, responder a tradições religiosas distintas e oferecer condições acústicas, térmicas e de iluminação que favoreçam o recolhimento e a emoção sem provocar desconforto físico.
Segundo Tiago Oliva Schietti, capelas bem projetadas são ativos estratégicos para funerárias e cemitérios. Além de qualificar a experiência da família, esses espaços permitem a realização de cerimônias independentemente das condições climáticas, ampliam a capacidade de atendimento simultâneo e podem ser utilizados para outras finalidades em períodos de menor demanda, como reuniões comunitárias, sessões de apoio ao luto e eventos culturais que fortalecem o vínculo do empreendimento com a comunidade local.
Materiais, paisagismo e a experiência sensorial do espaço
A experiência de um cemitério não é apenas visual. O som do vento entre as árvores, a textura de um banco de pedra, o cheiro da terra úmida após a chuva e a temperatura de uma galeria coberta compõem uma experiência sensorial que afeta profundamente o estado emocional de quem visita o espaço. Arquitetos que trabalham com programas funerários, atentos a essa dimensão, produzem ambientes que confortam sem precisar recorrer a recursos decorativos excessivos.
Conforme frisa Tiago Oliva Schietti, o paisagismo é parte indissociável do projeto arquitetônico em um cemitério-parque ou em qualquer empreendimento funerário que ambicione qualidade. Espécies vegetais escolhidas pelo porte, pela floração, pela sombra que oferecem e pela facilidade de manutenção constroem, ao longo dos anos, uma paisagem viva que envelhece com dignidade e que se torna, por si só, um motivo para a visita das famílias.
A arquitetura cemiterial contemporânea não resolve o luto, mas pode torná-lo mais humano. Espaços bem projetados acolhem a dor sem amplificá-la, oferecem silêncio sem impor isolamento e preservam a memória sem transformá-la em peso. Para o setor funerário brasileiro, investir nessa qualidade projetual é reconhecer que o ambiente também cuida, e que cuidar bem é, sempre, uma escolha deliberada.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
